É muito estranho como é difícil se acostumar com algumas coisas, mas não por fazer coisas novas e sim, por não ter mais essas coisas, essas rotinas, esses costumes. Ultimamente tenho me acostumado com a ansiedade, mas espero que a medicação ajude.

Pensei nesse texto porque ganhei uma nova mochila de notebook, a minha antiga está se desfazendo de idade e uso já, e precisava de uma nova, mas ela ta no chão, no vão entre a cama e o guarda roupa, em frente ao espelho de corpo, o local que ficava sua mochila rosa, e esses dias as memórias se juntaram, a mochila preta vi ela rosa e lembrei de muita coisa, dos dias que você ficava aqui, das inumeras vezes que carreguei do carro até aqui para que você podesse passar mais tranquila pelos cachorros. 

Lembro que essa mochila rosa parecia a bolsa mágica da Hermione, cabia diversas mudas de roupa, e diversas outras coisas, que na minha cabeça nunca fizeram sentido caber tudo ali, lembro dela também que muitas vezes fiquei trancado fora do meu próprio quarto, porque eu esquecia algo, e você tinha fechado tudo para tomar banho e se trocar sem ninguém interromper, e que as vezes pedia desculpa porque já tinha terminado, e só tava sentada em frente ao computador olhando sites de compras e esqueceu de destrancar. 

Lembro que dela sempre tinha algumas roupas que você sempre usava comigo, e roupas que usava aqui em casa, impossível esquecer o short de pijama cinza e a camisa branca de friends com a estampa dos rostos um em cima do outro. Geralmente essa memória, vem com você sentada na ilha da cozinha, e tomando café e pergutando se tem bolo, ou me observando enquanto eu fazia algo.

Dela também lembro sempre que você tirava alguns pijamas específicos, principalmente o azul com nuvens e o verde do cthulhu que tinhamos igual, lembro também quando você ficava mais dias do que imaginava e tava sem pijamas limpos e pedia alguma roupa minha, e geralm
ente pegava a camisa das casas de Westeros ou as emoções do Darth Vader, onde eram todas iguais, só o capacete dele.



Lembro também de suas camisas de bandas, de algumas que te dei, como das heroinas mulher maravilha e capitã marvel, ou a minha preferida "desistir é sempre a melhor opção", a camisa do hard rock café, que foi um dos dias mais divertidos da minha vida. Lembro de todas as camisas que você usava, lembro dos seus shorts, suas calças, como a preta listrada que você usou no dia que nos conhecemos ou a da Levi's que você pediu tanto e te dei com tanta felicidade. Lembro de tanta coisa, que preferiria não lembrar, e até lembro de você reclamando todas as vezes que vinha porque esquecia de trazer uma sandália e pegava uma minha ou da minha mãe, poucas vezes você trazia sua opercada, lembro que sempre reclamava que ia sujar o all-star branco. Mas que colocava com muita felicidade quando iamos comprar um açaí, e não esquecer que o seu era com adição de morango e para tirar banana e colocar kiwi, mas o meu podia ser normal. 

Lembro de muita coisa, lembro muitas vezes de tudo isso e mais com uma felicidade que tive o prazer de viver e passar anos assim, mas às vezes dói lembrar de tudo isso porque sinto falta, e queria que tudo fosse um sonho, e passasse logo e amanhã à noite eu fosse te buscar e eu visse de novo aquela mochila rosa no chão do meu quarto. Mas eu sei que não vai acontecer mais, sei até que esse meu quarto em breve vou deixar de dormir nele, e talvez assim o resto das lembranças sumam, e é tão difícil quando elas estão aqui onde eu moro. 

Minha cabeça entendeu que tudo passou, que terminamos, que você seguiu, mas meu corpo ainda não, as vezes ele treme e sente algo quando lembro, e é confuso quando a cabeça e o corpo não estão em sintonia, é confuso e doloroso. 

Espero que você não tenha lembranças assim de mim, porque machuca muito e eu não quero isso para ninguém, essa dor interna é muito forte. Alguns dias são mais fáceis que os outros, tive muitos dias fáceis, mas as vezes, os difíceis só vem, com ansiedade, saudade, vontade de chorar e fazer algo para me ocupar, e o pior que esses são os dias mais longos. Mas eu to bem, e é só eu pensar que amanhã é outro dia e pode tudo melhorar.

Eu to seguindo, mas o luto é difícil, as vezes me sinto bem como nunca, as vezes quero chorar e não tem lágrimas, não tenho com quem falar, ou tenho e não consigo,eu só quero que... tudo passe logo. E que em breve eu possa ver isso com tudo só com carinho, mas sem dor, e que possa viver isso de novo com outra pessoa. Não que ela vá substituir, até porque seria errado, não por você, não por ela, talvez um pouco, mas comigo, eu tenho que entender que antes de seguir, eu não estou procurando alguém que me complete e preencha meus erros e vazios, e sim que some, e ta sendo um processo difícil de autoconhecimento, luto, ansiedade e abertura.

Maldita mochila rosa.